terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Cabelo, cabeleira, descabelada, cabeluda!! Reedição do Manifesto em favor dos cabelos crespos



O que é o povo brasileiro se não uma síntese de vários povos? O que somos nós se não o resultado das sínteses destas culturas e a ressignificação de diferentes valores, costumes e etnias que nos acompanha nas características físicas, bastante misturadas, que carregamos! Somos negros e louros, japoneses e mouros, magros, baixos, gordos e altos. Somos japoneses no samba, negros no bolero, louros no mambo, mulatos na bossa nova, brancos no choro, e todos em todos os lugares e não há nada de errado nisso!

A declaração universal pelo direito a diversidade coloca em seu primeiro artigo, lindamente, que a diversidade cultural é tão importante para a humanidade quanto a diversidade biológica o é para a natureza. Pois bem exatamente por ser o brasileiro esta mistura de povos que muitas vezes se discute que quem pertence a este ou aquele grupo não pode ser definida apenas por traços físicos, é preciso também que o sujeito se sinta pertencente ao grupo a que esta sendo indicado.

Os cabelos de uma pessoa dizem muito sobre ela, dizem muito sobre a que cultura ela esta ligada e a que padrões ela se identifica ou é forçada a se identificar, pois apesar da beleza da Declaração Universal a mídia reforça muito um tipo como padrão de beleza. A ditadura da moda imposta e divulgada por veículos de comunicação de massa arrebatam milhares de seguidores homens e mulheres. Assim cria-se um verdadeiro culto aos cabelos lisos e para se ter madeixas cada vez mais esticadinhas são inventados a cada ano um novo processo químico que os garantam: Chapinhas, pranchas, escova permanente, escova japonesa, definitiva, chocolate, indiana, progressiva e muitas outras.

Não critico os milhares que buscam estes métodos para alisar cada vez mais seus cabelos, tão pouco entendo as pessoas cujos cabelos já são lisos e que ainda assim submetem-se a estes processos químicos para ter os seus “roboticamente” esticados, mas procuro os respeitar, pois tenho eu também minhas vaidades capilares.

Confesso que nunca me considerei uma pessoa vaidosa, até aparecerem meus primeiros cabelos brancos. Nunca achei que isto me incomodaria tanto, mas incomodou, e eu que nunca fui de pintar cabelo tornei-me discípula de Loreal, e tenho praticamente um altar, uma prateleira no meu armário, dedicado a caixinha de tintas que não fica vazia de forma alguma. Quando me olho no espelho e vejo se espalhando bem na minha testa aquela mecha de cabelos brancos que insiste em afrontar-me, fico realmente irritada, sinto me transformando em Mortiça Adams ou em Cruela Cruel do 101 Dálmatas e para impedir esta transformação lanço mão da tinta e acabo com elas, mas faço isso por opção e não por imposição.

Não tenho intenção, portanto, de fazer uma crítica aos cabelos lisos ou uma apologia contra a chapinha, venho apenas exigir que se respeite os meus cabelo enrolados e volumosos. Assim como algumas pessoas amam seus cabelos lisos, os meus cachos fazem parte de mim e eu os amo igualmente. Completam minha silueta e fazem parte de minha personalidade. Dizem quem sou e nele me reconheço.

Quero ter liberdade de poder andar com meus cabelos soltos sem ouvir piadinhas infames: “Cabelo crespo é igual a bandido, esta preso ou armado!” e perguntas idiotas, tão idiotas quanto quem as faz: “ Dormiu em frente ao ventilador?” “ Tá revoltada hoje?” Sem contar aqueles que na tentativa de parecer menos preconceituosos vem expressar sua opinião, sem ter sido perguntado nada: “Admiro sua coragem, você assume seu cabelo, você demonstra que uma pessoa de atitude!”, ou pior “Pra usar o cabelo assim tem de ter atitude!”.

Gente!? Quem perguntou alguma coisa? Eu quando saio com meu cabelo solto não estou perguntando nada, não tem nada a ver com atitude, ou até tem! Estou apenas querendo ser feliz, estou bem. Porque estas opiniões não são oferecidas as pessoas com os cabelos lisos e soltos também? Porque só são necessárias para reafirmar a “coragem” das pessoas com cabelos crespos? De fato o que estão querendo me dizer “Filhinha é muita coragem sua sair com esssssssse cabelo!!!” ou “ Eu jamais sairia na rua desse jeito!” Isso entre outras coisas, tá bom, eu já entendi! E daí!?

Que se danem essas pessoas!! Parem com este tipo de piadinhas que só demonstram quão preconceituosos ainda somos, demonstram como apesar das recomendações e de leis, pessoas como eu sofrem e muito o preconceito velado e declarado, pois muitas vezes para evitar piadas e comentários sem graça ficam com os cabelos presos ou aderem à moda das químicas alisadoras.

Que saibam todos que esta não será minha opção, vou continuar a andar com meus cabelos ao vento, prenderei quanto eu tiver vontade, mas andarei com ele solto quando quiser. Estes comentários xucros só servirão para fortalecer minha decisão e afrontar-lhes com o descaso a suas opiniões, opiniões que eu não perguntei, então, por favor, poupem-me deles. Respeitem o direito meu e das futuras gerações de optar, mas optar mesmo, por ter seu cabelo ondulado ou não!!

Pelo direito de viver minha opção étnica, pelo direito de demonstrar minha diversidade e pelo direito de ter e andar com meus cabelos ondulados e volumosos soltos, termino este manifesto. Quem gostar obrigado, quem não gostar igual!

Shirley de Souza.

 

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