O que é o povo brasileiro se não uma síntese de
vários povos? O que somos nós se não o resultado das sínteses destas culturas e
a ressignificação de diferentes valores, costumes e etnias que nos acompanha
nas características físicas, bastante misturadas, que carregamos! Somos negros
e louros, japoneses e mouros, magros, baixos, gordos e altos. Somos japoneses
no samba, negros no bolero, louros no mambo, mulatos na bossa nova, brancos no
choro, e todos em todos os lugares e não há nada de errado nisso!
A declaração universal pelo direito a diversidade
coloca em seu primeiro artigo, lindamente, que a diversidade cultural é tão
importante para a humanidade quanto a diversidade biológica o é para a
natureza. Pois bem exatamente por ser o brasileiro esta mistura de povos que
muitas vezes se discute que quem pertence a este ou aquele grupo não pode ser
definida apenas por traços físicos, é preciso também que o sujeito se sinta pertencente
ao grupo a que esta sendo indicado.
Os cabelos de uma pessoa dizem muito sobre ela,
dizem muito sobre a que cultura ela esta ligada e a que padrões ela se
identifica ou é forçada a se identificar, pois apesar da beleza da Declaração
Universal a mídia reforça muito um tipo como padrão de beleza. A ditadura da
moda imposta e divulgada por veículos de comunicação de massa arrebatam
milhares de seguidores homens e mulheres. Assim cria-se um verdadeiro culto aos
cabelos lisos e para se ter madeixas cada vez mais esticadinhas são inventados
a cada ano um novo processo químico que os garantam: Chapinhas, pranchas,
escova permanente, escova japonesa, definitiva, chocolate, indiana, progressiva
e muitas outras.
Não critico os milhares que buscam estes métodos
para alisar cada vez mais seus cabelos, tão pouco entendo as pessoas cujos
cabelos já são lisos e que ainda assim submetem-se a estes processos químicos
para ter os seus “roboticamente” esticados, mas procuro os respeitar, pois
tenho eu também minhas vaidades capilares.
Confesso que nunca me considerei uma pessoa
vaidosa, até aparecerem meus primeiros cabelos brancos. Nunca achei que isto me
incomodaria tanto, mas incomodou, e eu que nunca fui de pintar cabelo tornei-me
discípula de Loreal, e tenho praticamente um altar, uma prateleira no meu armário,
dedicado a caixinha de tintas que não fica vazia de forma alguma. Quando me
olho no espelho e vejo se espalhando bem na minha testa aquela mecha de cabelos
brancos que insiste em afrontar-me, fico realmente irritada, sinto me
transformando em Mortiça Adams ou em Cruela Cruel do 101 Dálmatas e para
impedir esta transformação lanço mão da tinta e acabo com elas, mas faço isso
por opção e não por imposição.
Não tenho intenção, portanto, de fazer uma
crítica aos cabelos lisos ou uma apologia contra a chapinha, venho apenas
exigir que se respeite os meus cabelo enrolados e volumosos. Assim como algumas
pessoas amam seus cabelos lisos, os meus cachos fazem parte de mim e eu os amo
igualmente. Completam minha silueta e fazem parte de minha personalidade. Dizem
quem sou e nele me reconheço.
Quero ter liberdade de poder andar com meus
cabelos soltos sem ouvir piadinhas infames: “Cabelo crespo é igual a bandido,
esta preso ou armado!” e perguntas idiotas, tão idiotas quanto quem as faz: “
Dormiu em frente ao ventilador?” “ Tá revoltada hoje?” Sem contar aqueles que
na tentativa de parecer menos preconceituosos vem expressar sua opinião, sem
ter sido perguntado nada: “Admiro sua coragem, você assume seu cabelo, você
demonstra que uma pessoa de atitude!”, ou pior “Pra usar o cabelo assim tem de
ter atitude!”.
Gente!? Quem perguntou alguma coisa? Eu quando
saio com meu cabelo solto não estou perguntando nada, não tem nada a ver com
atitude, ou até tem! Estou apenas querendo ser feliz, estou bem. Porque estas
opiniões não são oferecidas as pessoas com os cabelos lisos e soltos também?
Porque só são necessárias para reafirmar a “coragem” das pessoas com cabelos
crespos? De fato o que estão querendo me dizer “Filhinha é muita coragem sua
sair com esssssssse cabelo!!!” ou “ Eu jamais sairia na rua desse jeito!” Isso
entre outras coisas, tá bom, eu já entendi! E daí!?
Que se danem essas pessoas!! Parem com este tipo
de piadinhas que só demonstram quão preconceituosos ainda somos, demonstram
como apesar das recomendações e de leis, pessoas como eu sofrem e muito o
preconceito velado e declarado, pois muitas vezes para evitar piadas e comentários
sem graça ficam com os cabelos presos ou aderem à moda das químicas alisadoras.
Que saibam todos que esta não será minha opção,
vou continuar a andar com meus cabelos ao vento, prenderei quanto eu tiver
vontade, mas andarei com ele solto quando quiser. Estes comentários xucros só
servirão para fortalecer minha decisão e afrontar-lhes com o descaso a suas
opiniões, opiniões que eu não perguntei, então, por favor, poupem-me deles.
Respeitem o direito meu e das futuras gerações de optar, mas optar mesmo, por
ter seu cabelo ondulado ou não!!
Pelo direito de viver minha opção étnica, pelo
direito de demonstrar minha diversidade e pelo direito de ter e andar com meus
cabelos ondulados e volumosos soltos, termino este manifesto. Quem gostar obrigado,
quem não gostar igual!
Shirley de Souza.
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