terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um pouco da minha história...


              Eu nasci em São Paulo, bem no centro, no hospital São Paulo. Filha de uma mineira, com 1 metro e meio, que contanto até o último fio de cabelo, dava 1,53 e que aos 21 anos de idade mandou arrancar todos os dentes e colocou dentadura. Acreditava ser mais fácil e barato cuidar da dentadura do que escovar os dentes de verdade! Sério! Nunca conheci os dentes de minha mãe. Quando eu nasci ela já usava dentadura!
                Meu pai um negro de dois metros e cinco de altura, isso mesmo 2,05 metros, segundo minha mãe muito bonito, por quem ela fora realmente apaixonada. Mas o sujeito bebia, ficava ciumento e batia nela. Resultado: Depois de uma briga em que minha pegou uma faca e jogou de longe grudando a orelha de meu pai na parede do barraco em que moravam, ela foi embora.  Considero minha mãe uma heroína, porque naquela época a mulheres ficavam apanhando e ela tomou outra decisão, uma mulher pequena, mas muito forte. 
              Não pense que esta história me entristece! Sou só mais uma brasileira com histórias desse tipo e que deu certo. Na verdade me considero uma pessoa de sorte, a começar pelo meu nome! Meu nome é Shirley porque todos os anjos e demônios estavam de plantão quando minha mãe, semi analfabeta, deu a meu pai, analfabeto de várias gerações, um pedaço de papel e um lápis preto e mandou que ele fosse até ao cinema copiar o nome da artista principal, Shirley Macklaine, que era o nome que ela queria para sua filha que acabara de nascer, eu. Sendo o Brasil um país onde os pais colocam o nome que querem nos filhos, (Xerox, Fotocópia e Autenticada que não me deixam mentir) e considerando que meu pai foi sozinho, isso mesmo sozinho copiar o nome  e depois  fazer o meu registro, na melhor das hipóteses eu poderia ter me chamado “Estrelando”, no entanto meu pai fez a cópia correta, até com Sh e Y.  Só por isso posso me considerar uma pessoa de sorte. 
                Bom o primeiro casamento de minha mãe não deu certo, ela foi embora, comigo pela mão com um ano e meio e com meu irmão no colo, com sete meses, para casa de minha tia Dona Merces, a megera! Não posso dizer que a detestava, tinha até uma ponta de agradecimento, porque de uma forma ou de outra ela nos acolheu por quase um ano na sua pensão. Tudo bem que para isso minha mãe tinha de trabalhar para ela a troco de comida. Eu só ia almoçar quase duas horas da tarde quando o movimento diminuía e minha mãe podia parar para me alimentar. Meu irmão, Michel, nessa época começando a engatinhar ficava com o pezinho amarrado na mesa para não subir na cama da minha tia. Difícil, mas verdade, ela não gostava de ninguém na cama dela. Era uma velha louca que não gostava de fato de ninguém, nem dela mesma, mas que dentro dessa loucura nos ajudou. A vida deu voltas e tempos depois ela perdeu tudo e minha mãe a acolheu, de forma muito melhor do que foi acolhida, mas isso é outra parte da história, para outro dia. Foi nesse lugar que minha mãe conheceu seu João Benício, que vira a ser meu padrasto.
                Nordestino, bronco, trabalhador, homem do tempo que se empenhava a palavra com os fios do bigode e que  palavra dada era cumprida. Minha mãe ficou grávida  do tal Sr. João, brigaram e se separam. Ela deu a luz a uma menina, minha irmã Geisa. Sozinha, com três crianças pequenas, morando na casa da irmã, doida, sem perspectiva de futuro, entrou em desespero, e no auge deste, levou os filhos para o prédio do juizado de menores que ficava próximo a estação São Judas do Metro. Pretendia entregar as crianças para que, se tivessem sorte, fossem adotadas. Como ainda eram pequenas, tinham mais chance. Acreditava realmente que estava nos dando a possibilidade de uma vida melhor.
                Conversou com uma assistente social e com uma psicóloga, e graças a análise dessa segunda recebeu uma ajuda financeira do estado para ficar com as crianças. A psicóloga  concluiu que minha mãe, visivelmente em depressão, quadro do qual ela nunca se curou de fato, se atiraria do Viaduto do chá quando saísse dali, tinha claras intenções de suicídio e não queria entregar os filhos por negligência e sim por amor. Ela tinha razão em tudo. 
                Não existia o bolsa família, mas havia a pensão, mais difícil de conseguir. Nós conseguimos. Graças a esta ajuda minha mãe voltou para casa com os filhos. Arrumou as malas e decidiu que iria voltar para sua terra natal, morar com a mãe em Minas Gerais. 
                  Foi até o bairro do Campanário, em Diadema, para que o Sr. João se despedisse da filha. Já estava mesmo com as malas, dali iria direto para a rodoviária e pegaria um ônibus para Minas Gerais, mas, (que bom que sempre existe um mas) o Sr. João não deixou, ao ver a filha mandou descer as malas, e com aquele jeito de homem machão, bronco mas que não foge a sua responsabilidade, (tipo que andou fora de moda por um tempo) não a deixou ir. Assumiu a mulher e as três crianças.
                  Passamos a primeira noite num quartinho que ele dormia com um irmão. No dia seguinte ele já havia alugado uma casa e comprado fogão cama e geladeira e mudado para lá com toda a nova família. Eles viveram juntos até que a morte os separou, levando primeiro minha mãe. Meu padrasto nunca quis ser chamado de pai, nem mesmo pela própria filha que o chama de Tio até hoje, por isso eu o chamo de JB (João Benício), mas nem por isso o amo menos que qualquer filho pode amar a um pai e devo a ele tudo que sou, que do seu jeito foi o melhor pai que eu poderia querer.  E esse é só o começo da minha história de brasileira, corinthiana, sofredora, mas com sorte! Isso ninguém pode negar! Graças a Deus!
 
Bjokas Shirley

Cabelo, cabeleira, descabelada, cabeluda!! Reedição do Manifesto em favor dos cabelos crespos



O que é o povo brasileiro se não uma síntese de vários povos? O que somos nós se não o resultado das sínteses destas culturas e a ressignificação de diferentes valores, costumes e etnias que nos acompanha nas características físicas, bastante misturadas, que carregamos! Somos negros e louros, japoneses e mouros, magros, baixos, gordos e altos. Somos japoneses no samba, negros no bolero, louros no mambo, mulatos na bossa nova, brancos no choro, e todos em todos os lugares e não há nada de errado nisso!

A declaração universal pelo direito a diversidade coloca em seu primeiro artigo, lindamente, que a diversidade cultural é tão importante para a humanidade quanto a diversidade biológica o é para a natureza. Pois bem exatamente por ser o brasileiro esta mistura de povos que muitas vezes se discute que quem pertence a este ou aquele grupo não pode ser definida apenas por traços físicos, é preciso também que o sujeito se sinta pertencente ao grupo a que esta sendo indicado.

Os cabelos de uma pessoa dizem muito sobre ela, dizem muito sobre a que cultura ela esta ligada e a que padrões ela se identifica ou é forçada a se identificar, pois apesar da beleza da Declaração Universal a mídia reforça muito um tipo como padrão de beleza. A ditadura da moda imposta e divulgada por veículos de comunicação de massa arrebatam milhares de seguidores homens e mulheres. Assim cria-se um verdadeiro culto aos cabelos lisos e para se ter madeixas cada vez mais esticadinhas são inventados a cada ano um novo processo químico que os garantam: Chapinhas, pranchas, escova permanente, escova japonesa, definitiva, chocolate, indiana, progressiva e muitas outras.

Não critico os milhares que buscam estes métodos para alisar cada vez mais seus cabelos, tão pouco entendo as pessoas cujos cabelos já são lisos e que ainda assim submetem-se a estes processos químicos para ter os seus “roboticamente” esticados, mas procuro os respeitar, pois tenho eu também minhas vaidades capilares.

Confesso que nunca me considerei uma pessoa vaidosa, até aparecerem meus primeiros cabelos brancos. Nunca achei que isto me incomodaria tanto, mas incomodou, e eu que nunca fui de pintar cabelo tornei-me discípula de Loreal, e tenho praticamente um altar, uma prateleira no meu armário, dedicado a caixinha de tintas que não fica vazia de forma alguma. Quando me olho no espelho e vejo se espalhando bem na minha testa aquela mecha de cabelos brancos que insiste em afrontar-me, fico realmente irritada, sinto me transformando em Mortiça Adams ou em Cruela Cruel do 101 Dálmatas e para impedir esta transformação lanço mão da tinta e acabo com elas, mas faço isso por opção e não por imposição.

Não tenho intenção, portanto, de fazer uma crítica aos cabelos lisos ou uma apologia contra a chapinha, venho apenas exigir que se respeite os meus cabelo enrolados e volumosos. Assim como algumas pessoas amam seus cabelos lisos, os meus cachos fazem parte de mim e eu os amo igualmente. Completam minha silueta e fazem parte de minha personalidade. Dizem quem sou e nele me reconheço.

Quero ter liberdade de poder andar com meus cabelos soltos sem ouvir piadinhas infames: “Cabelo crespo é igual a bandido, esta preso ou armado!” e perguntas idiotas, tão idiotas quanto quem as faz: “ Dormiu em frente ao ventilador?” “ Tá revoltada hoje?” Sem contar aqueles que na tentativa de parecer menos preconceituosos vem expressar sua opinião, sem ter sido perguntado nada: “Admiro sua coragem, você assume seu cabelo, você demonstra que uma pessoa de atitude!”, ou pior “Pra usar o cabelo assim tem de ter atitude!”.

Gente!? Quem perguntou alguma coisa? Eu quando saio com meu cabelo solto não estou perguntando nada, não tem nada a ver com atitude, ou até tem! Estou apenas querendo ser feliz, estou bem. Porque estas opiniões não são oferecidas as pessoas com os cabelos lisos e soltos também? Porque só são necessárias para reafirmar a “coragem” das pessoas com cabelos crespos? De fato o que estão querendo me dizer “Filhinha é muita coragem sua sair com esssssssse cabelo!!!” ou “ Eu jamais sairia na rua desse jeito!” Isso entre outras coisas, tá bom, eu já entendi! E daí!?

Que se danem essas pessoas!! Parem com este tipo de piadinhas que só demonstram quão preconceituosos ainda somos, demonstram como apesar das recomendações e de leis, pessoas como eu sofrem e muito o preconceito velado e declarado, pois muitas vezes para evitar piadas e comentários sem graça ficam com os cabelos presos ou aderem à moda das químicas alisadoras.

Que saibam todos que esta não será minha opção, vou continuar a andar com meus cabelos ao vento, prenderei quanto eu tiver vontade, mas andarei com ele solto quando quiser. Estes comentários xucros só servirão para fortalecer minha decisão e afrontar-lhes com o descaso a suas opiniões, opiniões que eu não perguntei, então, por favor, poupem-me deles. Respeitem o direito meu e das futuras gerações de optar, mas optar mesmo, por ter seu cabelo ondulado ou não!!

Pelo direito de viver minha opção étnica, pelo direito de demonstrar minha diversidade e pelo direito de ter e andar com meus cabelos ondulados e volumosos soltos, termino este manifesto. Quem gostar obrigado, quem não gostar igual!

Shirley de Souza.

 

O retorno


                Nossa quanto tempo não escrevo no meu blog. Descobri que gosto de escrever, sinto vontade de exercitar, de colocar minha opinião e deixá-la registrado. Não sei de onde ela vem ou quando me dei conta desta "coisinha" que me cutuca e me dá esta vontade de transformar palavras em ideias, sei que comecei a escrever porque queria sentir a dificuldade da escrita na pele, antes de pedir aos alunos que o fizessem. Quando eu era aluna escrevia de forma mecânica e sofri muito por isso. As redações de número certo de linhas, o exagero de cobrança em ortografia não me trouxeram muita alegria, queria fazer diferente com os meus alunos e isso me fez procurar desenvolver a capacidade de escrever.

                No início era apenas uma busca técnica, no entanto durante um curso com Alfredina Nery em que ela nos pediu que escrevêssemos sem nos preocuparmos com regras, "apenas escreva", e foi o que eu fiz, depois ouvi: " Olha aqui Shirley, escrever é 5 minutos de inspiração e 95 de transpiração, você inspira muito bem, parabéns! Agora vamos transpirar!" Essa fala foi a redescoberta da roda. Percebi que eu podia deixar-me solta e só depois me preocupar com as normas técnicas que tanto me atrapalhavam, achei o meu caminho.

                Não me considero uma escritora, somente alguém que faz uso da palavra escrita para colocar seus pensamentos, e isso para mim já basta, nem sei se as pessoas gostarão de que escrevo, nem sei se será lido por alguém mais que eu, mas esse é o risco de se expor, não tenho problemas com isso, aceito-o.

                Ainda assim fiquei muito tempo longe deste blog, a escrita não deixei de fazer, escrevo em vários lugares, tenho textos espalhado pelo computador, nos meus cadernos, fichas entre outros, mas nada organizado, tudo muito solto. Outro dia fiquei indignada com mais uma reportagem de estupro coletivo e escrevi minha opinião, mas que ficou presa no computador, e o blog aqui parado.

                Porque resolvi retomá-lo? Sabe quando você tem a grata satisfação de conhece pessoas deliciosamente interessantes em momentos nada a ver? Pois é, conheci um rapaz, o Thiago, que já era conhecido, em reuniões de trabalho e através da mãe dele que trabalha comigo, mas de fato nos reconhecemos num momento em que comprávamos perfumarias. Sem nenhum motivo aparente começamos a conversar sobre escrever, ele me dizendo sobre suas poesias e seu blog eu lhe disse da minha incapacidade de ser poeta e que gostaria de ler o que ele escrevia. Ele me perguntou se eu escrevia e eu lhe disse que tinha um blog também com algumas ideias, mas que era algo mais parecido com crônicas, porém estavam abandonados já a algum tempo. Ele me incentivou de forma tão carinhosa a retomar, a trocar endereços e de nos visitarmos pelos blogs, e cada um apreciar a escrita do outro, que fiquei tentada a retomar, a ter alguém com quem compartilhar.

                Fiquei realmente comovida com aquele momento, como ele realmente ama suas letras, expõe seu pensamentos sem preocupar-se, apenas escreve para quem quiser ler. Assim antes de me identificar no blog dele, numa atitude de auto crítica, porque ele manda muito bem, resolvi rever o meu. Reli minhas escritas e como fiquei feliz em reencontrá-las, não é um Saramago, bem longe disso, mas gostei mesmo do que li. Hoje faria muita coisa diferente, pretendo até reeditar algumas, mas amei o que esta aqui, e agradeci ao momento bendito em que encontrei o Thiago.

                Não vou assumir o compromisso de estar aqui todos os dias, mas toda vez que tiver vontade de registrar as coisas do meu dia a dia não as deixarei mais perdidas por ai, virei publicá-las aqui.

                Quem lerá? Não sei. Isso importa? Estou aberta a todos, que venha a "Diversitas", e se quiser, adorarei receber alguns comentários, os que forem elogiosos, gostosos, carinhosos eu degustarei vagarosamente, os que não me parecerem bons serão também apreciados, críticas também nos fazem crescer e remédios amargos também curam, agora, os que vierem apenas com o intuito de "encher o saco" podem fazê-los, mas serão sem dúvidas ignorados, não se preocupem, eu não vou me abater, isso é um compromisso.  

                  Quem quiser conhecer o blog do Thiago, vale a pena, acesse palavrasegavetas.blogspot.com.

                Beijo a todos.

                Shirley