A pouco tempo atrás, num curso, foi solicitado que fizessemos uma relato de nossa história de educação. Parei para pensar na minha história e gostei do que escrevi. Todos nós somos frutos das vivencias que tivemos, boas ou más, e todas estas vivencias formam nossas histórias de vida. Essa é a minha, espero que gostem!
Era uma vez uma menina de cinco anos, alta para sua idade, um tipo muito moleca, com duas grandes tranças negras, numa cidade pequena chamada Diadema e morando num bairro violento, chamado Campanário gostava de brincar de escolinha e dava aulas aos menores ou maiores que entravam na sua brincadeira.
Era um pouco autoritária porque era ela que sempre era a professora. Havia a algum tempo antes seduzido um tio que lhe dera de presente uma caixa de giz e seu padrasto lhe havia improvisado uma lousa com uma tábua que sobrara de uma de suas construções para que ela parasse de rabiscar as paredes. Sendo assim ela a dona da lousa e do giz, não havia espaço para discussões. Ela era a professora.
O engraçado é que mesmo sem saber escrever “de verdade” ela escrevia, copiava escritas de coisas que tinha próximo. Livros? Não tinha, sobrava mesmo as embalagens que a mãe deixava ela pegar ou que encontrava no lixo ou na rua. Com o tempo ganhou cadernos velhos com algumas folhas em branco. Isso não tinha importância. Desenhava, escrevia os nomes das crianças que estavam na brincadeira.
Na verdade essa menina já tinha demonstrado que sabia o que era escrita há algum tempo atrás. Com 4 anos, mais ou menos, arrumou um “namorado”, um rapaz de 27 anos que trabalhava com seu padrasto e que dizia que era namorado dela e foi para ele que escreveu sua primeira carta. Ninguém sabe ao certo o que estava escrito, porque do ponto de vista do adulto eram apenas muitas cobrinhas numa folha. Mas a menina, essa sim, sabia o que estava escrito e lia alegremente para quem quisesse ouvir a carta que entregaria para o “namoradinho”.
O bonito dessa história é que as pessoas que rodeavam essa menina eram, na sua grande maioria, analfabetos ou semi-alfabetizados, mas todos respeitavam a brincadeira dela e a respeitaram. Sem querer e sem saber todos estavam deixando e dando condições para que ela, brincando decodificasse o código da língua escrita.
Essa menina chegou a primeira série, sem fazer o “parquinho”, como era chamado a Educação Infantil da época, já alfabética. Por sorte sempre foi uma aluna adaptada à escola. A única reclamação das professoras era de que ela falava demais, nunca precisou repetir o ano, mas lembra-se muito bem de que quando entrou na primeira série tinham 4 salas com 35 alunos em cada, ficou na mesma escola até completar a oitava série, que só tinha duas classes com 25 alunos em cada. O que aconteceu com mais da metade dos alunos da primeira série que não chegaram à oitava? Isso já preocupava, não se sabe por que, os pensamentos da menina.
O seu irmão ia ser reprovado pela 2ª vez no quarto ano porque não entendia divisão e não entendia os problemas de matemática. A menina ensinou o irmão e dois vizinhos, brincando sério de escolinha e escrevendo no espelho do guarda roupas do quarto e contando com pedrinhas. Sua mãe ajudava trazendo-lhes bolo e suco para o intervalo, seu padrasto fornecia as pedrinhas para a contagem. Nenhum dos três foi reprovado, aprenderam a divisão e passaram na recuperação. Um vizinho adulto precisa aprender a escrever o nome para assinar a carteira de trabalho e foi procurar a menina, que então estava na sexta série. Ela ensinou ele também. A mãe da menina vendo tudo isso falou com ela que queria aprender a ler melhor e escrever melhor para preencher seus próprios cheques e pagar suas contas. É que a mãe da menina tinha, a essa época, um bar e fazia várias compras e pagava com cheques e estava sempre chamando a menina para preencher, mas quando a menina não estava, ficava sem graça de ter de pedir a outros. A menina conseguiu um livro de poesias e deu para sua mãe, o livro chamava-se Mar Negro. Elas liam e reliam essas poesias, copiavam e reescreviam as poesias uma para a outra, modificavam algumas palavras e quando viram sua mãe já preenchia seus próprios cheques.
A irmã de um colega não conseguia entender o que era sujeito e predicado e o irmão dela pediu ajuda a menina, agora mais crescida. A menina sentou perto de sua nova aprendiz e primeiro quis saber o que ela já sabia e como ela pensava algumas estruturas. Em três aulas a menina entendeu o que era sujeito e predicado.
Nesse movimento a menina foi ajudando na alfabetização de uns e outros, mas a grande alfabetizada foi ela mesmo que viu na necessidade dos outros a importância das letras e foi na formação do outro formando a si mesmo.
O que aconteceu com a menina? Fez magistério e hoje é professora “de verdade”!
Era um pouco autoritária porque era ela que sempre era a professora. Havia a algum tempo antes seduzido um tio que lhe dera de presente uma caixa de giz e seu padrasto lhe havia improvisado uma lousa com uma tábua que sobrara de uma de suas construções para que ela parasse de rabiscar as paredes. Sendo assim ela a dona da lousa e do giz, não havia espaço para discussões. Ela era a professora.
O engraçado é que mesmo sem saber escrever “de verdade” ela escrevia, copiava escritas de coisas que tinha próximo. Livros? Não tinha, sobrava mesmo as embalagens que a mãe deixava ela pegar ou que encontrava no lixo ou na rua. Com o tempo ganhou cadernos velhos com algumas folhas em branco. Isso não tinha importância. Desenhava, escrevia os nomes das crianças que estavam na brincadeira.
Na verdade essa menina já tinha demonstrado que sabia o que era escrita há algum tempo atrás. Com 4 anos, mais ou menos, arrumou um “namorado”, um rapaz de 27 anos que trabalhava com seu padrasto e que dizia que era namorado dela e foi para ele que escreveu sua primeira carta. Ninguém sabe ao certo o que estava escrito, porque do ponto de vista do adulto eram apenas muitas cobrinhas numa folha. Mas a menina, essa sim, sabia o que estava escrito e lia alegremente para quem quisesse ouvir a carta que entregaria para o “namoradinho”.
O bonito dessa história é que as pessoas que rodeavam essa menina eram, na sua grande maioria, analfabetos ou semi-alfabetizados, mas todos respeitavam a brincadeira dela e a respeitaram. Sem querer e sem saber todos estavam deixando e dando condições para que ela, brincando decodificasse o código da língua escrita.
Essa menina chegou a primeira série, sem fazer o “parquinho”, como era chamado a Educação Infantil da época, já alfabética. Por sorte sempre foi uma aluna adaptada à escola. A única reclamação das professoras era de que ela falava demais, nunca precisou repetir o ano, mas lembra-se muito bem de que quando entrou na primeira série tinham 4 salas com 35 alunos em cada, ficou na mesma escola até completar a oitava série, que só tinha duas classes com 25 alunos em cada. O que aconteceu com mais da metade dos alunos da primeira série que não chegaram à oitava? Isso já preocupava, não se sabe por que, os pensamentos da menina.
O seu irmão ia ser reprovado pela 2ª vez no quarto ano porque não entendia divisão e não entendia os problemas de matemática. A menina ensinou o irmão e dois vizinhos, brincando sério de escolinha e escrevendo no espelho do guarda roupas do quarto e contando com pedrinhas. Sua mãe ajudava trazendo-lhes bolo e suco para o intervalo, seu padrasto fornecia as pedrinhas para a contagem. Nenhum dos três foi reprovado, aprenderam a divisão e passaram na recuperação. Um vizinho adulto precisa aprender a escrever o nome para assinar a carteira de trabalho e foi procurar a menina, que então estava na sexta série. Ela ensinou ele também. A mãe da menina vendo tudo isso falou com ela que queria aprender a ler melhor e escrever melhor para preencher seus próprios cheques e pagar suas contas. É que a mãe da menina tinha, a essa época, um bar e fazia várias compras e pagava com cheques e estava sempre chamando a menina para preencher, mas quando a menina não estava, ficava sem graça de ter de pedir a outros. A menina conseguiu um livro de poesias e deu para sua mãe, o livro chamava-se Mar Negro. Elas liam e reliam essas poesias, copiavam e reescreviam as poesias uma para a outra, modificavam algumas palavras e quando viram sua mãe já preenchia seus próprios cheques.
A irmã de um colega não conseguia entender o que era sujeito e predicado e o irmão dela pediu ajuda a menina, agora mais crescida. A menina sentou perto de sua nova aprendiz e primeiro quis saber o que ela já sabia e como ela pensava algumas estruturas. Em três aulas a menina entendeu o que era sujeito e predicado.
Nesse movimento a menina foi ajudando na alfabetização de uns e outros, mas a grande alfabetizada foi ela mesmo que viu na necessidade dos outros a importância das letras e foi na formação do outro formando a si mesmo.
O que aconteceu com a menina? Fez magistério e hoje é professora “de verdade”!
Mil beijos
Pro Shirley
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